
Estrangeiros contam porque escolheram Manaus para morar. — Foto: Arquivo pessoal
Hospitalidade do povo, oportunidades para carreira, lugar para encontrar um grande amor. Manaus conta com inúmeros motivos que fizeram estrangeiros optarem pela cidade para viver. E para celebrar o aniversário de 352 anos Manaus, o g1 resolveu perguntar a quem nasceu muito longe o porquê escolheu adotar a cidade.
Oportunidades na Música
A musicista da Orquestra de Câmara do Amazonas, Elena Koynova, vive em Manaus desde 1997 e conta que a hospitalidade da população está entre os principais motivos que a fizeram escolher a cidade.

Elena Koynova é violinista da Orquestra da Câmara do Amazonas. — Foto: Arquivo pessoal
“Já moro em Manaus há 22 anos, mas me naturalizei brasileira em 2011. A minha história com o Brasil começou quando um dos meus alunos de violino foi aprovado para fazer parte da Amazonas Filarmônica, que foi criada no mesmo ano. Ele comentou comigo sobre uma vaga, mandei um vídeo na fase de seleção e fui aprovada. No momento em que participei da seleção, eu não pensei muito, simplesmente achei que seria uma boa aventura. A gente precisa se aventurar na vida e foi isso que eu fiz”, relembra.
Elena conta que ainda lembra o sentimento que teve assim que chegou a Manaus e desceu do avião.
“Eu nunca vou esquecer a minha primeira sensação quando cheguei a Manaus, anos atrás. Assim que saí da área de embarque, o primeiro gole desse ar quente e cheio de água me colocou para dentro de uma nova realidade. Para mim, o choque cultural e choque de idiomas eram gigantescos. Eu não falava uma palavra em português naquela época. Eu pensava que dava para me virar com o inglês, mas com o tempo percebi que não era só isso”, disse.
Ela relembra que o plano inicial era ficar por meses na cidade, mas à medida que o tempo passava, seus planos mudavam e ela sentia cada vez mais vontade de morar na região.
“A princípio, eu pensava em uma coisa temporária na minha vinda para cá, mas com a minha experiência de vida, eu sei que toda coisa temporária é permanente e aquilo que você pensa que vai ser para sempre dura muito pouco. Então, quando caiu a ficha, que eu estava aqui e que o lugar é excepcional, fora do comum, foi incrível. O calor típico manauara eu não encontrei em lugar nenhum do mundo”.

Sobre as comidas típicas da região, Elena conta que já se acostumou com os pratos e já tem um preferido. “Eu sou viciada em tapioca com queijo coalho e tucumã, posso comer esse prato no café da manhã, no almoço, no jantar, eu não me importo. Eu amo tambaqui, tucunaré. A culinária aqui é sensacional”, finaliza.
Paixão pela gastronomia
Proprietária de uma cafeteria no coração do Centro – o Largo de São Sebastião – a empresária Luiza Albuquerque Calvão trouxe um pouco de Portugal para Manaus. O ambiente, com músicas e comidas típicas de Portugal, atrai manauaras e turistas do mundo inteiro. Luiza mora há 6 anos em Manaus e resolveu tornar sua paixão por gastronomia um meio de sustento.

Luiza Albuquerque, proprietária da Cafeteria do Largo — Foto: Foto: Karla Mendes/g1 AM
“O meu negócio com cafeteria começou aqui em Manaus. Lá em Portugal eu sempre gostei muito de gastronomia, mas trabalhava em outra área e aqui eu vi uma boa oportunidade de mostrar um pouquinho do que temos lá, foi minha maneira de empreender. Já estive em vários bairros, mas esse universo que encontrei aqui no Centro, acho maravilhoso e é onde me sinto bem”, relembra Luiza.
A empresária conta que no começo teve que se adaptar ao clima da região, bem mais quente que o de Portugal, mas depois disso, mesmo após o marido decidir voltar para a cidade natal deles, ela quis ficar em Manaus.
“A cultura dos dois lugares é muito diferente, as pessoas são diferentes, mas as daqui são muito receptivas e simpáticas. Eu posso sentar e conversar com elas por horas no café. Sou muito bem recebida e me sinto em casa cada vez mais”, disse.

Sobre comidas típicas da região, Luiza não tem dúvida: o melhor prato eleito por ela é o tambaqui assado.
“Minha comida amazonense preferida é o tambaqui assado, eu acho maravilhoso, mas a matrinxã não fica atrás, eu também acho muito bom. O Amazonas tem essa semelhança com Portugal no uso dos temperos, com pimentão, tomate e especiarias assim. No geral todas as comidas são maravilhosas, mas a gente se sente em casa mesmo é com a hospitalidade que recebemos”, conta.
Amor em Manaus
Para quem acha difícil encontrar o amor em Manaus, a ilustradora marroquina Malika Dahil mostrou que é possível e veio à cidade para conhecer o companheiro, Eunuquis Aguiar, que é quadrinista e enfermeiro. Desde então, ela escolheu morar na capital amazonense. Os dois uniram o amor pela arte e, hoje em dia, seguem com produções em quadrinhos que concorrem até a prêmios internacionais.

Malika e o esposo, Enuquis Aguiar. — Foto: Foto: Arquivo pessoal
“Em 2015, recebi uma mensagem de uma pessoa me pedindo uma ilustração que faria parte de um livro. Tempos depois, fui surpreendida ao saber que ele é brasileiro. Conversamos muito sobre nossas culturas e costumes, até que eu comprei uma passagem e vim para o Brasil conhecê-lo pessoalmente”, relembra.
Logo após chegar a Manaus, Malika e Eunuquis iniciaram uma história de amor. Ela foi aprendendo português e conseguiu emprego como ilustradora em um jornal de Manaus, desde então, passou a morar na cidade. Após a união, os dois tiveram uma filha.
“Quando eu cheguei , tive uma mistura de sentimentos, divididos entre medo e admiração pelo ambiente em si. Tinha medo por estar numa terra tão longe e sem entender a língua. Também tive admiração por esta floresta infinita. Como eu usava véu e roupas compridas, sofri com o calor e as pessoas sempre olhavam para mim nas ruas”, conta.
Os dois chegaram a criar uma revista em quadrinhos, que fala sobre o encontro cultural do casal, costumes e tradições de cada um. A HQ “Fronteira” conta a história de amizade entre um amazonense e uma marroquina e mostra as descobertas e aceitações de culturas tão diferentes entre si. Atualmente eles concorrem ao prêmio que equivale ao “Oscar dos Quadrinhos”.
Assim como na revista em quadrinhos que produziu, Malika afirma que vive uma grande aventura na cidade, conhecendo os principais pontos turísticos e se adaptando à culinária local.
“Me divirto muito estando em Manaus, conhecendo as belezas, os pontos turísticos e claro, provando comidas deliciosas. Já aprendi a fazer tapioca regional com a minha sogra, além de lasanha, farofa, pudim. É uma troca muito boa a que vivo”, diz.
Ambiente de pesquisa

Phillip Fearnside — Foto: Rodrigo Duarte / Greenpeace/ Divulgação
Vista como um ambiente propício para pesquisas ambientais, Manaus também recebe cientistas internacionais, como Phillip Fearnside, que já mora há 40 anos na região. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (Inpa) é vencedor do Prêmio Nobel e estuda os impactos do desmatamento da Floresta Amazônica.
“Antes de vir para Manaus, eu havia morado dois anos em uma “agrovila” na rodovia Transmazônica, coletando os dados para a minha tese de doutorado. Durante esse tempo, passei alguns dias no Inpa e apresentei um seminário no instituto, depois voltei aos EUA para analisar os dados e escrever a tese. Quando recebi o convite para vir trabalhar no Inpa, não pensei duas vezes – aceitei na hora”, diz.
Phillip conta que não demorou muito para que escolhesse ficar em Manaus após aceitar o emprego no Inpa. Antes de vir para Manaus, ele já tinha morado na Índia, trabalhado com manejo de peixes em reservatórios, e não tinha planos de se estabelecer em uma cidade.
“Naquela época, eu pensava que ia viver a vida em blocos de dois anos, passando dois anos na Amazônia, dois anos na África, dois anos na Indonésia, e assim em diante. Mas este plano mudou logo que cheguei, o que era uma boa decisão tanto pelo lado profissional quanto pelo lado pessoal”, relembra.
O pesquisador conta também que se apaixonou pelas comidas típicas da região. “Morando aqui há tanto tempo é claro que já tenho minhas preferências, os peixes amazônicos são, para mim, o destaque da comida regional”, conta.
Por Karla Mendes, g1 AM